UM ENSAIO SOBRE A MORTE
Gianini Cochize Ferreira

"Uma vez que o amor é eterno, não é preciso temer a morte".
Lee L. Jampolsky

"Não é que eu tenha medo de morrer. Só não quero estar lá quando isso acontecer".
Woody Allen

Quem gosta de falar sobre a morte?

Confesso que para a maioria das pessoas tratar desse assunto é desconfortável, porém, por mais paradoxo que pareça, a morte pode se transformar em uma grande aliada em nossas vidas.

Por temor e distorções dogmáticas implantadas principalmente pelas religiões ocidentais, falar sobre a morte é um dos maiores tabus culturais do mundo contemporâneo.
Negar a morte, não se preparando para ela, cria em nós uma cultura ilusória de eternidade. Essa sensação enganosa de que podemos ser eternos nesta vida, nos faz procrastinar e ignorar ações de real valor.

Substituímos o momento presente e as pessoas de nossas vidas por sentimentos de ansiedade, culpa, estresse, preocupação e exagerado medo de perda. Nos preocupamos mais com o que não temos ao invés de agradecer o que temos. Desejamos possuir mais e mais poder, status e prestígio. Todo arcabouço de coisas ao nosso redor, inconscientemente serve para nos dar a falsa impressão de que estamos protegidos e seguros. Imunes à morte. Mentira.

Esse padrão de pensamento nos faz escravos de nossas posses, que acabam nos possuindo. Um forte apego às coisas é o reflexo de nosso exagerado apego à vida, que na realidade não nos pertence. Vivemos de maneira escrava, ilusória e sofrida. Este apego à vida terrena é proporcional ao temor da morte, por isso preferimos não falar sobre ela.

Como diz Jampolsky, o amor é eterno. Contudo, precisamos reconhecer que, independente de nossas crenças religiosas e nossa moral, a vida humana é finita. Todos nós estamos sujeitos a esta fatalidade, que pode nos visitar a qualquer momento. Disfarçamos e negamos essa verdade até que ela impiedosamente nos surpreende, tirando de nós pessoas que amamos. Enquanto isso não acontece enquadramos essa verdade somente aos outros, de preferência bem distantes de nós, ou seja, que morram os desconhecidos. Inconscientemente é assim que mecanicamente raciocinamos. Afastar essa fatalidade de nós também nos faz sentir supostamente mais seguros. Aqui reside outro engano.

A banda de rock Titãs popularizou, em uma nova versão, a música "É preciso saber viver" de Roberto Carlos. Muitos a conhecem, cantam, elogiam, mas poucos meditam sobre sua essência. A letra dessa música é uma verdadeira e simples lição de sabedoria. É preciso saber viver, mas também necessitamos saber morrer. Reflita: nesse exato momento você está vivendo ou morrendo aos poucos? Minha resposta é simples: as duas coisas. No mesmo instante em que vivemos também morremos. Essa descoberta interior transforma profundamente nossa relação com a realidade. Uma nova percepção dos fatos se revela e a nosso zelo e amor ao próximo provoca uma surpreendente reforma em nossas atitudes.

Na verdade, desde o nosso nascimento, no surgimento da vida, iniciamos uma jornada em direção à morte. A cada instante em que vivemos também morremos. Se o passado já morreu, e o futuro nos leva em direção à morte. Onde realmente encontramos a vida? Ficou fácil descobrir, a vida só pode ser encontrada no presente. Por isso falamos que a vida passa num instante. É a mais pura das verdades. Essa verdade nos revela um problema muito maior. Como nossa mente, mal educada, nos joga a todo instante para o passado e para o futuro, passamos muito pouco conosco no momento presente, e aí deixamos de apreciar o sabor da vida, de sentir a vida.

Precisamos educar nossa mente para aprender a lidar com a utilização de nosso tempo. Quando não o fazemos, consentimos participar e acreditar no efeito da aceleração do tempo, em função do ritmo alucinante da "vida moderna".

Tempo, vida e morte, três elementos que precisam ser compreendidos, equilibrados e respeitados para que a paz e a felicidade se façam presentes em nossos corações.

Na visão do Xamanismo, a morte representa o início de um ciclo de vida. Tudo aquilo que termina significa, por sua vez, o início de alguma coisa nova. Para os Xamãs, a morte de algum ângulo sombrio de nossa personalidade sempre serve como prenúncio do nascimento de um novo dom ou talento já contido no âmago de nosso Ser. Deixar morrer o velho para que o novo possa nascer. Esse ensinamento nos revela uma outra análise sobre a morte, não aquela elimina a nossa personalidade terrena, e sim a que faz morrer em nós os hábitos, comportamentos, relacionamentos ou partes de nosso Ser que necessitam partir. Ao permitirmos que parte de nosso Ser morra, abrimos a possibilidade de nascimento de um novo mundo interior.

Por esse ponto de vista, passamos constantemente por um ciclo de vida e morte.

Um outro ensinamento que a morte nos proporciona é a experiência que pessoas que passaram por um processo de quase-morte nos revelam. Todas a descrevem como algo positivo que mudou a sua vida. Elas saem dessa experiência sentindo o que é importante e o que não tem importância. Os valores são profundamente modificados.

Faça a seguinte experiência. Supondo que um médico lhe dissesse que lhe resta apenas um dia de vida, o que você faria com esse tempo? Em minhas palestras sobre Atitude Positiva, eu sempre faço essa pergunta ao público. Na ocasião, eu coloco ao fundo a música "O último dia" de Paulinho Moska. Na maioria das vezes são surpreendentes as respostas obtidas. Eu sempre digo, se é isso o que você faria, faça-o.

Vou encerrando por aqui nossa conversa, mas gostaria muito que você se detivesse um tempinho para refletir como deseja viver o resto de sua vida. Espero que não seja como um morto-vivo.

Verifique se é este tipo de pensamento que gostaria de ter seu leito de morte: "Puxa, como eu gostaria de ter passado um pouco mais de tempo no escritório".
Jampolsky nos ensina: "Passe junto à natureza tanto tempo quanto passa com a tecnologia".

O que falo agora já dito por muitos de muitas maneiras: "Vivam suas vidas saboreando a cada instante como se fosse o último". E eu complemento, mas não confundam essa mensagem tomando atitudes inconseqüentes em detrimento ao bem comum e ao sentimento alheio. Acima de tudo, respeitem a vida, e também a morte.

Aprendamos com ambas, para que um dia tenhamos a capacidade de ensinar que a pior morte é aquela habita de maneira obscura em nosso vazio existencial, pela simples falta de amor. O amor não deve ser compreendido pelo cérebro, e sim sentido pelo coração. Aprendamos a superar a nossa total incapacidade de lidar com a morte e a aperfeiçoar as nossas atitudes para melhor viver a vida.

Até sempre!

"Viver e não ter a vergonha de ser feliz. Cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz". (Gonzaguinha)

 

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