Entrevista com Luis Roberto Mesquita
13/07/2004

"Sempre disse que não é um prêmio só meu, e um prêmio de muitos. Nunca fiz um trabalho sozinho e acredito que representa um prêmio para a cidade de Guarulhos. Espero que sirva de exemplo para que outras pessoas denunciem, façam movimentos semelhantes ou diferentes, mas inspirados nisso, porque o objetivo da premiação é justamente incentivar outras entidades em outras partes do mundo a lutarem contra a corrupção." (Luis Roberto Mesquita)


Fonte: Jornal Olho Vivo - 29.10.02

 

 

 

 

 

1.Você gosta de ser guarulhense?
Sim, eu gosto. Precisamos gostar das nossas raízes. Esta não é a cidade ideal, mas precisamos gostar daquilo que somos. Muito do que fiz, foi lutar para que a cidade fosse melhor.

2. Fale um pouco sobre a sua infância e adolescência.
Foi uma infância tranqüila! Estudei no Capistrano e depois no Conselheiro, já no colegial estudei no Objetivo, em São Paulo. Sempre morei na região central da cidade, de onde era também meu grupo de amigos. Minha família tinha uma chácara no Taboão e meu final de semana era lá ou então no Cabuçú (áreas mais afastadas na época), onde subir em árvores e andar de bicicleta era a diversão, além disto passava as férias em Santos.

3. Qual a sua formação acadêmica?

Administração de Empresas pela FAAP, com pós-graduação em Política e Estratégia na USP. Queria dar continuidade nas atividades da minha família no comércio, porém, até a oitava série tinha a idéia de fazer medicina, mas sempre gostei de muitas áreas e também acreditava que deveria unir o útil ao agradável. Engenharia e arquitetura também me atraíram no período, e hoje acabei entrando também no ramo de construção.

4. Tem algo nas suas atividades profissionais que você não gosta de fazer?
Não, sempre tive a impressão que me daria bem em várias áreas, por me envolver e fazer as coisas com vontade, me comprometendo.

5. Quais são os princípios passados por seus pais que orientaram sua formação?
Foram várias as pessoas importantes na minha formação. Além dos meus pais, meus avós e tios também me influenciaram bastante. O foco no trabalho herdei de meu pai Álvaro; de minha mãe Lygia a sinceridade e uma grande dedicação aos filhos. Heraldo, meu tio, tinha a austeridade como grande característica, sendo muito correto em todas as suas ações. Tia Ditinha era a grande protetora e minha avó Zélia era o próprio amor incondicional, uma bondade. Morávamos em casas germinadas e estávamos sempre muito juntos. Hoje até me policio, tenho uma tendência a dar e fazer demais por minhas filhas.

6. Na vida, quais são os seus medos? O que o preocupa mais?
Talvez meus maiores medos estejam relacionados a problemas com meus filhos, algum acidente, por exemplo, ou um futuro infeliz, mas sou otimista demais e nunca visualizo problemas, não faço projeções ruins.

Em relação à cidade, acredito que haja tendência a ter problemas sociais e de violência. Acredito que as soluções do poder público ficam aquém do necessário. Tenho pela cidade uma mescla de esperança e desesperança. Embora otimista, eu sempre fui muito pé no chão.

7. Você pode nos dizer quais são seus princípios religiosos?
A religião que mais me agrada, embora eu não freqüente lugar nenhum, é a Espírita, em sua filosofia Kardecista. Eu venho de família católica, mas encontro mais lógica no espiritismo, porém acho que nenhuma religião é dona da verdade. Cada uma tem seus dogmas e suas coisas ilógicas. Acredito na reencarnação, por exemplo, mas não encontro lógica em alguns pontos. Em todas as religiões, existe influência de pessoas que impuseram pensamentos que muita gente segue, muitas vezes sem refletir.

Não acredito que Deus determine o futuro de alguém por ser dessa ou daquela religião, e não acredito que a salvação esteja em uma religião, mas na conduta das pessoas e na bondade, mas acredito que toda religião tem seus fundamentos positivos.


8. Você teme a morte? Como a entende?
Não chega a ser um temor, mas espero que ela demore muito. Por enquanto eu digo que quero chegar a uns 90 anos, mas quando tiver mais idade posso querer ir mais longe.
Eu acredito que a morte não é o fim, que o espírito continua vivendo em outra dimensão, mas não tenho pressa em conhecer essa dimensão.


9. Existe alguém em especial, que você não chegou a conhecer que serviu de exemplo para o seu desenvolvimento?
Nada que fosse forte que eu seguisse.

10. Como você se tornou uma pessoa pública?
Aconteceu quando me tornei presidente da Associação Comercial, antes eu acho que tinha algumas características naturais de liderança, organizei minha formatura na faculdade, fui orador. Nunca busquei ser líder, na escola como na Associação acabou acontecendo naturalmente. Só decidi ser presidente da ACIG (nome da ACE anteriormente) por insistência de um amigo, que considerava que a situação lá não estava boa, e que precisavam de minha ajuda. Mesmo assim, para assumir a presidência a disputa foi bastante acirrada.

Eu já era conhecido no comércio, as pessoas me respeitavam por não me omitir, e por vezes discordar com o que estava sendo feito na cidade. Naturalmente, eu não consigo deixar de falar o que penso. Eu tenho um grau de tolerância grande, mas quando passa de um limite que atinge os meus princípios, e não agüento.


11. Quando as pessoas dizem que você é um exemplo a ser seguido, você entende por quê? Comente sobre isso.
Por ter agido sem interesse pessoal, sem buscar vantagens, por querer o bem da coletividade e oferecer meu tempo e meu trabalho sem tirar vantagens de cargos e situações.

12. Sabemos que você é uma pessoa discreta, mas poderia nos contar qual a visão que tem de si mesmo?

Sou uma pessoa muito ligada à família, sobretudo no ciclo menor. Gosto de trabalhar e sou muito preocupado com os meus compromissos. Preocupo-me muito em agir de acordo com as minhas convicções e talvez seja um pouco exigente comigo mesmo.

13. Por que você decidiu se envolver no cenário político de nossa cidade e liderar uma mudança que acarretou o afastamento de um prefeito?
Não fui eu quem decidiu, as coisas aconteceram naturalmente. Pediam minhas opiniões sobre o cenário político da ocasião, e minhas opiniões acabavam sendo divulgadas pela mídia local.
Na ocasião o então prefeito Néfi Tales, pediu que eu fosse testemunha de seu programa de governo, solicitando minha assinatura num termo público. Assinei, mais exigi que a seguinte cláusula fosse acrescentada: "Aqueles que assinam esse compromisso de governo se comprometem a fiscalizar e denunciar os compromissos não cumpridos". As premissas básicas para que assinasse eram a inclusão de compromissos com a probidade, a ética e a transparência. Foi por isso que fiz a denúncia. Acho que ele nunca imaginou que eu assim o faria. No horário político gratuito esse "compromisso de governo" era mostrado e nele aparecia, também, minha assinatura. Portanto, apenas cumpri com aquilo que assinei: denunciar os compromissos não cumpridos e a falta de probidade.


14. Você teve medo de se envolver? Como lidou com isso?
Não, nunca senti medo. Sempre que as pessoas tentavam me impedir, eu me motivava mais. Eu não busco uma briga, mas quando algumas pessoas tentam impedir o que precisa ser feito, ainda de maneira mesquinha, isso me motiva a agir mais.

15. Você sofreu algumas ameaças?
Sofri várias ameaças. Recebi alguns telefonemas, mas não diziam exatamente o que fariam, porém, a promotoria teve evidências de ameaças que estariam sendo planejadas..

16. Sua família te apoiou naquele momento?
Minha família sempre me apoiou, mas depois desses episódios, pediu que eu me envolvesse menos. Pode ser meio estranho o que vou dizer, talvez eu até tenha tido uma visão irresponsável, pois eu não visualizava o perigo.

17. O que você perdeu e o que você ganhou em ter tomado aquela atitude de denúncia, entregando uma cópia da fita à Rede Globo?
O que eu ganhei foi a satisfação intima de que contribui com uma mudança e acabei ganhando um reconhecimento inesperado, pois não era esse o objetivo.
Eu não sei o que perdi, acho que não houve perdas, talvez o tempo que poderia ser mais dedicado à família e aos negócios.

18. Você faria tudo novamente?
Faria, mas aprimorando. Igual eu não faria!
Precisávamos tirar o véu da hipocrisia e a verdade precisava ser mostrada, os problemas precisavam ser evidenciados. A certeza da impunidade era muito grande. As atitudes de alguns políticos eram completamente sem vergonha e sem medir conseqüências.
Ao se passar muito tempo sem que ações moralizantes surjam, as pessoas vão se acomodando e podem deixar de temer a Justiça, voltando a abusar do poder que detêm.


19. Na sua opinião, qual o principal mal que assola a sociedade?
Eu acho que no Brasil existe um excesso de burocracia, um custo excessivo da máquina pública e uma carga tributária altíssima.

Outro problema muito sério no Brasil é a promiscuidade entre os poderes, a falta de independência. Uma excessiva influência do executivo e um excesso de interesse do legislativo - negócios, vantagens e vaidades.Também esse conceito de que os políticos são corruptos afasta as pessoas da política partidária
.
Sério também é o fisiologismo dos partidos políticos: a falta de critérios na escolha dos candidatos; na formação; e na moralidade. Pensam apenas na facilitação do caminho para se ganhar uma eleição.


20. Você acredita que um país é corrupto porque as pessoas são corruptas?
Acho que as pessoas são suscetíveis à corrupção; é características da sociedade atual, o lucro fácil, o enriquecimento sem esforço e a fama a qualquer preço, o que falta são verdadeiros líderes para a juventude, hoje existem muitos falsos líderes.

Nossa legislação é muito falha, a Justiça deveria estar representada nas leis. Enfim, o Brasil deveria ser repensado.


21. Você acredita no ser humano? Acredita que mesmo cometendo as maiores atrocidades, existe dentro de cada um o bem em potencial?
Acredito. Acho que todos nós temos um lado bom a ser desenvolvido. A questão é de saber cultivar o lado bom, referências, exemplos e oportunidades. Mas também todos nós temos um lado ruim.

22. Qual sua visão sobre a administração do atual prefeito?
É a melhor opção, mas não é perfeito. Acho que escolheram bem o slogan: Melhor pra Guarulhos. Observe que eles não evidenciaram partido no material de divulgação.

23. O que precisava ser feito, que na sua visão ele não fez?
Faltou investir mais em infra-estrutura, pensar em coisas de longo prazo que possam trazer um melhor desenvolvimento econômico e social para a cidade.

24. É verdade que você recusou a proposta para ser vice na chapa do Elói? Por que você recusou?
Sim. Porque nunca esteve em meus planos buscar esse poder. Não é objetivo de vida nesse momento.

Como vice eu não teria condições de fazer muito mais do que fiz e faço, talvez um pouco mais.

Acho horrível financiamento de campanha, você se compromete já no início..... E se eu fosse candidato, teria que planejar com um bom tempo antes, para chegar com propostas que poderiam realmente mudar.


25. Qual sua visão sobre o novo conceito de Responsabilidade Social?
Pouco no universo quantitativo, poucos têm a real preocupação com a responsabilidade social. Muitas empresas até entram por necessidade e acabam agindo na manada, por exigências externas. Acho que mesmo assim é válido, talvez a dificuldade das empresas em serem mais "socialmente responsáveis" seja a dificuldade na própria manutenção do lucro, acho que as empresas poderiam fazer muito mais se tivessem condições de lucro. Dependendo do setor o lucro é tão pequeno que não se consegue fazer o que se gostaria.

Com suas dificuldades a empresa que mais se aproxima de um bom conceito de responsabilidade social, na cidade é o Laboratório Ache. Claro que é uma grande empresa e seu estágio talvez permita um melhor desempenho. Outra empresa que é um orgulho para a cidade é a Bauducco, muito do que ela faz não é nem divulgado, talvez nem para seus próprios funcionários. Acho que estes exemplos precisam ser ressaltados para que os outros sigam.

"O ser humano e a mídia tendem a valorizar o negativo, acho que precisamos ter ações a serem feitas não importando a dimensão. Na cidade, no bairro, na rua. Há muitos ídolos que dão exemplos distorcidos colocando a fama, o poder e o dinheiro como únicos objetivos, iniciativas como a da Atitude Positiva precisam ser multiplicadas e divulgadas. A sociedade se identifica muito com o lucro fácil e com a cultura da lei de Gérson".

(Luis Roberto Mesquita)


Depoimento sobre a ATITUDE POSITIVA:

Eu achei a idéia bastante interessante, acho que falta falar mais sobre atitude positiva. "O ser humano e a mídia tendem a valorizar o negativo, acho que precisamos ter ações a serem feitas não importando a dimensão. Na cidade, no bairro, na rua. Há muitos ídolos que dão exemplos distorcidos colocando a fama, o poder e o dinheiro como únicos objetivos, iniciativas como a da Atitude Positiva precisam ser multiplicadas e divulgadas. A sociedade se identifica muito com o lucro fácil e com a cultura da lei de Gérson".
Dentro das empresas, as pessoas têm agido só por incentivos pessoais, muito pouco pelo coletivismo; às vezes as empresas vão mal porque as pessoas não conseguem perceber a necessidade de compartilhar, de ajudar um ao outro, de trabalhar em equipe.

(Luis Roberto Mesquita)

<< voltar

 

A transformação que vem de dentro

© Copyright Atitude Positiva

 

GENTE DE ATITUDE
para quem faz a diferença