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IRRESPONSALIDADE SOCIAL

Todo tema que possa interferir e melhorar a qualidade de vida da sociedade deve ser intensamente debatido. Entre esses temas está a Responsabilidade Social Empresarial, pauta de discussão em diversos setores sociais, estreitamente associada ao crescimento ocorrido no Terceiro Setor no cenário nacional a partir de 1995, e é co-irmã do conceito de Desenvolvimento Sustentável, que aponta uma nova visão de desenvolvimento para o mundo, considerando além dos aspectos econômicos, o respeito às questões ambientais e a busca da equidade social.

O Instituto Ethos, criado em 1998, a partir da iniciativa de empresários, é a instituição mais respeitada quando o assunto é RSE. O Instituto define Responsabilidade Social Empresarial como “uma forma de conduzir os negócios que torna a empresa parceira e corresponsável pelo desenvolvimento social.” (Ethos, 2005)
A intensidade com que o tema vem sendo debatido na sociedade e divulgado pela mídia é positiva. Traz a luz da consciência de empresários e consumidores uma nova percepção na condução dos negócios e nos hábitos de consumo. A mensagem central é lembrar e conscientizar que todos temos responsabilidades.

Contudo, percebemos que como já ocorreu com outros temas organizacionais, os “oportunistas de plantão”, nas suas mais diversas posições – empresários, governantes, acadêmicos, palestrantes, articulistas, profissionais liberais etc, incluem de maneira superficial e irresponsável em seu discurso a importância da “Responsabilidade Social”. Embarcam na onda do momento para não se sentirem excluídos do debate. São tão influenciáveis como um pré-adolescente é pela moda. É nesse momento que a face da “Irresponsabilidade Social” toma forma. Muitos desses atores são formuladores de opiniões, verdadeiros artistas na arte de propagar ideias.

Contudo, muitos deles formulam discursos hipócritas e perigosos. O “lucro”, por exemplo, passa a ser enxergado como algo negativo, parece ser obra do pecado. A força desse discurso faz com que empresários fiquem temerosos em anunciar o resultado de seu negócio.

Para Peter Drucker, respeitado por sua grande contribuição quando o assunto é administração e sociedade, “uma atitude de responsabilidade que seja economicamente irracional e insustentável nunca poderá ser de fato responsável”. O autor também comenta que na empresa, “o desempenho da missão específica é a primeira necessidade e o maior interesse da sociedade, e a primeira responsabilidade social da instituição”. (DRUCKER, 2002)
No caso das universidades por exemplo, Drucker diz que, “uma universidade incapaz de preparar os líderes e profissionais do futuro não é socialmente responsável, por mais comprometida que possa estar com boas obras”. Esse exemplo serve para todo tipo de organização, como para qualquer profissional ou cidadão. É como tentar salvar alguém que está se afogando em pleno oceano sem saber nadar. Nesse ponto o autor afirma que empreender tarefas para as quais não temos competência pode criar expectativas que serão frustradas.

A cobrança que a sociedade faz às empresas, exigindo que elas invistam em projetos que minimizem os problemas sociais é legítimo, as empresas devem encontrar meios criativos de oferecer uma contrapartida social pelos seus bons resultados. Porém , quando isso é feito por impulso ou pressão, podem gerar mais problemas do que soluções. A empresa que resolve intervir num problema social no qual não tem e não é de sua competência pode mais atrapalhar do que ajudar.

O exemplo pode ser dado para a pessoa que resolve fazer um trabalho voluntário numa área ou instituição que não tem conhecimento. Se não for bem orientada, a sua disposição em ajudar se torna um problema.

Tanto uma empresa como um profissional, ao fazer a sua escolha de atuação, deve atender primeiramente às necessidades sociais. Um profissional serve uma organização que consequentemente serve a sociedade. Portanto, uma empresa que não obtém resultados em seu ramo de negócios (lucro), corre o risco de não sustentar seus profissionais e deixar de atender as necessidades de seus clientes. Ou seja, está caminhando para o seu fim. Deste ponto de vista, a empresa nada mais é do que um órgão que compõe um organismo social maior. A disfunção desse órgão pode gerar um mal maior para todo o sistema. E isso também é irresponsabilidade social.

Não estamos sendo condescendentes com lucros exorbitantes das instituições financeiras de nosso país, muito menos com as grandes corporações “draconianas”, que enxergam no lucro um fim em si mesmo. Para essas a ganância está acima de qualquer responsabilidade social. E tampouco estamos desprestigiando o trabalho voluntário. O que estamos submetendo à reflexão do leitor é que mesmo para ajudar é preciso desenvolver habilidades e competências. Equilibrar o sentimento de indignação com a capacidade de realização, e buscar soluções efetivas e não superficiais. Como diz o ditado popular: “de boas intenções o inferno está cheio”.

As visões que apresentamos não esgotam de forma alguma o tema, pelo contrário, visam fomentar outras visões que o enriqueçam. Cabe lembrar que todos nós temos os nossos momentos de irresponsabilidade social.

É fácil exigir que os outros assumam responsabilidade social. Também é fácil confundir “filantropia passageira”, ou seja: alívio de consciência passageiro, com um investimento socialmente responsável. É fácil cobrar e pressionar os outros a ajudar, mas quando temos que abrir mão de parte de nosso tempo, energia e dinheiro, encontramos todos as justificativas possíveis. Olhemos primeiro para nossas atitudes de responsabilidade ou irresponsabilidade diante do mundo, antes de cair no ciclo vicioso do julgamento inconsistente e do papel de vítima da sociedade.

“Uma visão sem ação não passa de um sonho. Ação sem visão é só um passatempo. Mas uma visão com ação pode mudar o mundo”. (Joel Barker)


Gianini C. Ferreira é professor da FIA, no MBA em Gestão de Negócios, especialista em influência, leciona as disciplinas de Liderança e Habilidades Gerenciais


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