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O DIA DAS CONVERSAÇÕES CORAJOSAS

Por Ricardo Farah

Em meu processo de amadurecimento cada vez fica mais claro que para mim a ordem do dia é ter conversações corajosas. O que são conversações corajosas? Todas aquelas conversações que precisamos ter conosco mesmo ou com os outros e que vamos adiando por uma serie de razões.

 

Razões internas e externas (estas e muitas outras sempre fundamentadas nos nossos medos): medo de nos machucarmos ao enxergarmos a verdade que pode doer, medo de perdermos a autoimagem que demorou tanto tempo para ser construída, medo de perdermos a imagem que o outro tem de nos (duplo engano), medo da reação do outro à nossa conversação corajosa, medo da eventual retaliação em caso de poder hierárquico, medo de perdermos amigos, de perdermos relacionamentos e assim por diante. Às vezes até medo do medo de não sabermos como falar com o outro.
No entanto, no dia-a-dia tenho descoberto dois caminhos que funcionam muito bem para mim. Ser verdadeiro na expressão de meu sentir e ser amoroso ao ter conversações corajosas comigo mesmo e com o outro.

Ser verdadeiro não significa ser o dono da verdade, mas estar bem consciente de que em determinada situação aquilo traduz uma realidade na qual eu vivo ou o outro vive. Quer-se afirmar a “minha” verdade perante o outro inevitavelmente estarei negando a verdade do “outro” e isto por si só́ gerará conflito.

Nas conversações corajosas quando ambos somos verdadeiros e amorosos surge à possibilidade de uma escuta ativa e de juntos resolvermos a situação criando uma terceira “verdade” (possibilidade) comum.

O que é ser amoroso neste contexto? É ser empático, colocando-se no lugar de quem vai nos ouvir, sentindo os mesmos sentimentos que teríamos se estivéssemos naquela situação. Um exemplo apenas para ilustrar: suponha que você̂ entrou junto com seu colega ao mesmo tempo na empresa. Ficaram amigos, as famílias se frequentam etc. Você̂ é promovido à líder deste colega e precisa dar-lhe alguns feedbacks. Como começar esta conversação corajosa? De forma amorosa, por exemplo, dizendo-lhe que você̂ terá́ de falar com ele, mas isto está gerando em você̂ sentimentos tais quais: “é difícil para eu ter de lhe falar isto em função de nossa amizade, mas embora não seja fácil tenho de fazê-ló porque meu cargo de liderança e minha coerência exigem que eu o faca"...

Mas há que se ter a coragem de “ter a conversação corajosa”. O famoso ditado “conhecei a verdade e ela vos libertará” faz todo o sentido ao desmancharmos crenças ilusórias que nos limitam ou limitam ao outro e nos impedem de avançar, mudar ou crescer.
Sermos verdadeiros é uma benção que nos liberta. No entanto, sermos verdadeiros ao ter conversações corajosas geralmente coloca-nos (quando a conversa é conosco) ou ao outro na defensiva. A descoberta que fiz e que tenho praticado é a de ser verdadeiro com amorosidade.

Assim, por exemplo, entre pares e entre lideranças e liderados, em uma mesma organização, há tantas coisas a serem ditas referentes aos “problemas” de trabalho, mas nosso medo de perder a amizade ou da reação defensiva do outro pode fazer com que fiquemos na inação. Vamos refletir um pouco: se ficarmos sem ter as conversações corajosas que estes momentos exigem, estamos nos condenando a permanecer no estado de “coisas mal resolvidas”. A quem isto ajuda? A ninguém! Eu perco, meu colega perde e a organização perde porque não há mudança de comportamentos, processos e ou rotinas. Vive-se o “estado do faz de conta”. Neste estado ninguém cresce. Pior que isto, como escolhi não ter a conversação corajosa necessária não posso também me fazer de vitima das circunstancias.

Recordo-me de um trecho de “O livro tibetano do morrer e do viver” de Soga Rinche, que desde 1999 me marcou profundamente com relação à̀ amorosidade: “Como disse Stephen Levine: Quando seu medo toca a dor de alguém, torna-se piedade; quando seu amor toca a dor de alguém, torna-se compaixão.”

Sutil mas muito verdadeiro, não? A compaixão nos iguala na condição humana. Não somos nem superiores e nem inferiores e se a intenção de nosso coração é a de efetivamente nos ajudarmos ou ajudarmos ao outro a inclusão e a conversação corajosa acontecerão.

 

Pronto para ter suas conversações corajosas?


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